Sou mais uma gota de chuva neste imenso espaço.Não pretendo mais que descarregar um pouco da minha memória que tem gravado algumas vivências nas paragens leste, Angola, com a CC3485, e outras coisas.....e loisas.

08
Abr 09

Busquei na "arca da velha" algo que talvez pudesse interressar, sem qualquer ficção ou "floridos" literários, mais uma "Coisas" da nossa passagem pelo leste de Angola. Escrevi algumas notas no Alto Chicapa daquilo que presenciei, bom ou mau, bonito ou feio e, na pasta desses apontamentos, já com as folhas amareladas e a caligrafia destoada com o tempo, encontrei algo, que já não lia à trinta e tal anos, estória essa que se localiza concretamente no círculo de aldeias em redor do Alto Chicapa. Fizemos psico-social que envolvia dar assistência a doentes, ensinar fundamentos sobre higiene, desmotivar as ideias tradicionais que os nativos tinham e que adquiriram ao longo de gerações, e aqui acho que errei ao tentar interferir nos modos desse maravilhoso povo Tchoqwé, descendentes da rainha Luegi. Hoje assim penso, mas na época apenas tinha intenção de curar as imensas infecções e as mais diversas maleitas que  nos apareciam , a nós enfermeiros, fosse no posto de socorro ou nas aldeias, e que era resultado das mézinhas do feiticeiro. Que me recorde visitei imensas vezes António Cabula, Samutxima, Samunge, Muatxiteca, Nandonge, Cambatxilonda, Muatxiaba etc....,  sempre com a paciência dos condutores que nos levavam a esses quimbos, como o Caparica, Esteves, João, Inglês, Rino, o Braga........enfim , todos aqueles amigos da ferrugem.

  Mas a estória que encontrei nos meus apontamentos começa assim:

-Fui chamado, já noite, para assistir um parto numa cubata no quimbo junto ao arame farpado e ao lado da casa do administrador civil:- Carvalho, vai aqui com o G.E. (grupos especiais recrutados nas aldeias) vêr o que se passa com a mulher dele que está a parir. Pediu-me o Diniz.

Peguei na bolsa de enfermeiro e lá fui até à cubata, que estava cheia de mulheres, e junto da rapariga estava uma katxa na katxa (mulher velha). Pedi para sair toda aquela amalgama de gente e, quando me preparo para trabalho de parto, de lanterna na mão porque não havia electricidade,  reparo fora da vagina um pequeno braço, já arroxado, o que após alguns procedimentos não tive dúvidas que quem havia de nascer estava sem vida. Chamei o G.E e disse-lhe:-Olha, a criança não pode nascer porque está morta, agora vamos tentar salvar a tua mulher!?

O que fazer? bonito serviço áquela hora da noite no meio da selva. Dei conhecimento ao Diniz que por sua vez transmitiu ao capitão. Impossível evacuar daquele fim-de-mundo.

-Tenta aguentá-la até amanhã de manhã e depois vai para o posto do Cacolo (90 km. de picada); disse-me o Diniz.

-Aguentá-la como Diniz?? Não temos oxigénio, só se a puser a soro e injecto-lhe vitamina K porque ela está com uma grande hemorragia!!! dito e feito. Aguentei a rapariga até o sol raiar e, depois dos preparativos numa Berliet, como instalá-la, manter o soro e segurança militar, lá arrancamos, mas transportar uma doente numa estrada, fraca que seja, não é como transportar  numa picada em pleno mato selvagem, é simplesmente um pesadelo, mesmo assim ía aguentando o soro. A poucos km do Cambatxilonda a mulher não aguentou e morreu. - G.E. a tua mulher morreu, disse-lhe.

O rapaz entra em prantos, mas entretanto chegamos ao quimbo de Cambatxilonda. Ficamos por ali. Descarregamos a mulher porque a Berliet seguia para o Cacolo,  e o G.E. não parava de chorar. Eu,  e o Vinhas que estava nesse destacamento, tentamos consolar o G.E.

-Ó pá não chores, a tua mulher não conseguia sobreviver, amanhã tens outra mulher!?

-Não é isso mê infermero, stou triste porque mulher mureu e eu inda nao pagar mulher, e os familiares pôr feitiço!! justificou o rapaz. Fiquei simplesmente de boca aberta perante o que houvi, ao mesmo tempo apavorado!!! já tinha presenciado muitas cenas dos feiticeiros, cujas procedimentos fizeram-nos injectar muitas penicilinas naqueles que a eles recorriam, mas  este episódio com o G.E. ultrapassa as raias da psico.

Este episódio alertou-me para o quão fácil é manipular a mente das pessoas, seja por "feiticeiros", profissionais da psico, vendedores, POLÍTICOS e outros habilidosos.

A continuação desta estória se seguirá com o título "Enfermeiro contra Feiticeiro"

 

Um abraço do Carvalho

 

publicado por paragemleste às 20:39
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