Sou mais uma gota de chuva neste imenso espaço.Não pretendo mais que descarregar um pouco da minha memória que tem gravado algumas vivências nas paragens leste, Angola, com a CC3485, e outras coisas.....e loisas.

04
Abr 09

Esqueci o primeiro dia no segundo, e deixei-me embalar naqueles poucos dias de Luanda.Foi um fartanso  de abacaxi, bananas, que no "Puto" era um luxo, as Canadá Dry`s, Cocas Cola e 7Ups que nunca tinha bebido até então.......enfim, foi um forróbódó!! tive a sorte de ter residentes amigos e familiares em Luanda que me permitiram conhecer um pouco esta pérola: barra do Cuanza, musseques da periferia onde uma familiar era professora, a ilha de Luanda onde o meu primo me "obrigou" a comer o melhor arroz de marisco, perdão, digo, marisco com arroz e outros gastronómicos pratos de fazer sonhar, os quais, para a minha anorética carteira era incompatível no "Puto".... que maravilha!!! que saudades do Versailhes, do Portugália e do tasco da porta verde, ao lado de uma casa de putas, junto à Mutamba, onde comi os mais deliciosos chocos com tinta, que até Zeus se lambia!. Era bom, e o que é bom acaba depressa, e quando me dou conta da situação estava metido num machimbombo (autocarro)  desconfortável para uma viagem de quase um dia até Nova Lisboa, hoje Huambo, onde se pernoitou como se pode. No dia seguinte, as "bestas" eram carregadas como gado nas carruagens do comboio que nos levou até ao Luso; ò minha gente! foram 3 alucinantes dias, e já a ração de combate!? era uma composição com muitas carruagens, completamente cheia de juventude que nos levava a um destino de incertezas; se me lembro, da CC3485 eramos mais ou menos 150 homens e  zero mulheres e chegamos ao destino cheios de comichão, cuecas sem mudar à quatro dias, picadelas de insectos e um fedor ao suor que não havia Chanel  que o tirasse.

-Destino:SACASSANGE!? começou o pesadelo!!! arame farpado, barracos a servir de casernas, cheias de piolhos e percevejos, deplorável, um rego de água que não tinha bom aspecto, W.C. não existia, e se queríamos fazer uma real "lasquida" ou uma mijadela era num buraco na terra com um metro de profundidade, que além dos tradicionais cagalhões, havia imensos animaizinhos, todos "uns amores", que lá habitavam, sem pagar renda, assim como carrochos, lagartos, cobras, sapos e para não mencionar os insectos que mais pareciam ter saído dum filme do "Indiana Jones....etc.". e cuidado, quem lá fosse com uns copos a mais estava sujeito a ir  à merda,  uma vez que só havia duas tábuas com 30 cm. de largura por cima da fossa, e para arrear o calhau  era preciso ser equilibrista e não dar peidos nas alturas!!! queria dar conhecimento desta "misura", e como??

 Um dia aparece o capitão Perdigão na enfermaria a pedir comprimidos para a dores de dentes;-Meu capitão deixe-me ver o dente p.f. Pedi.

-Ò Carvalho, tu não és dentista!!

-Mas se o dente estiver furado eu posso tirar  a dor imediatamente; retorqui.

Acedeu. Está bem, mas vê lá o que fazes! e verifiquei.

-Meu capitão, está mesmo furado e vou-lhe tirar a dor. Antes de sair da enfermaria não sentirá dor nenhuma.

 Coloquei um anestésico próprio, e para passar o tempo a fazer efeito aproveitei para lhe falar da fossa "cagadoira"; disse ele:-Se os outros suportaram nós aguentamos, no entanto vou ver essa situação. Passado alguns minutos perguntei:-então meu capitão, tem dores? não Carvalho a dor desapareceu, mesmo assim dá-me uns comprimidos para prevenir.

Passado alguns dias, vem o Diniz (saudoso) ter comigo;-Carvalho, o capitão disse para se deitar cal na fossa.Meu espanto, convenci!! Os rapazes já podiam ir fazer a sua divinal cagadela sem serem picados no cu pelos mosquitos e outros aviadores.

Este foi mais um episódio que o vosso enferm.Carvalho presenciou, e desculpem-me as incorreções linguisticas, pois nunca fui bom a português nem tenho veia de escritor ou contador de estórias. Um abraço, continuarei a contar aquilo que vi.

publicado por paragemleste às 18:21
sinto-me: ok

Com a ajuda do teu bonito texto, recordei-me, …em situação semelhante e voltando às "cagadeiras", quando estava de oficial de dia reportei por escrito aquela miséria, mas apanhei o nosso homem, aquele dos "colhões" cor de rosa ou o dos "colhões" na garganta, como muitos diziam, num dia de fúria, só faltou mandar o pessoal, descontente e a mim, lambe-las (não lhe guardo rancor, a vida e o comando, naquele inferno, não era fácil)... mas, destaco as vantagens de se precisar de um enfermeiro e de, muitas, muitas, e mais vitaminas...
Carvalho, o teu texto ajudou-me a viver mais um pouco, porque recordar é viver, continua.
Um abraço
Carlos A Santos
Alto Chicapa a 4 de Abril de 2009 às 22:17

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