Sou mais uma gota de chuva neste imenso espaço.Não pretendo mais que descarregar um pouco da minha memória que tem gravado algumas vivências nas paragens leste, Angola, com a CC3485, e outras coisas.....e loisas.

09
Abr 09

Continuação de “Retalhos do Alto Chicapa”

Após aquele episódio com a morte da mulher do G.E. regressamos ao Alto Chicapa, onde deixamos, a pedido do viúvo, e numa cubata, a falecida para seguir as  tradições próprias daquele povo.

            Os dias passavam no habitual ritmo de quem espera que os dias passem depressa, pois a ansiedade de sair dali  era grande, não por saudade ou receio do perigo que nos espreitava, nem pelo isolamento a que fomos submetidos ou temer conflitos com aquele povo maravilhoso e guerreiro, (os G.E`s eram bons no mato), mas simplesmente pela rotina diária e a arrogância de alguns militares que quiseram manifestar um estado de falsa altivez, pois achavam-se nas “sete quintas” e não tinham coragem de dialogarem com alguns militares que em termos hierárquicos estavam abaixo mas com um nível cultural superior. Pois nestes dias, eu, nos meus afazeres diários que não passavam  de atender na enfermaria militares e população, ou fazer psico-social, fui surpreendido com o aparecimento do G.E., num estado anormal a que ele dizia que era “fraqueza. Durante uma semana tratei-o de forma a que pudesse recuperar, mas para  espanto meu via aquele rapaz a mingar a cada dia, pois disse-me ele que não conseguia comer nada de nada!!! Provei-o ao levá-lo comigo ao refeitório e pedi ao Luís cozinheiro que lhe desse de comer o que ele quisesse: nada, aquele homem não conseguia comer. Entretanto e no caminho para a enfermaria fez-se luz da estória dos familiares  que lhe faziam feitiço se não pagasse a mulher!?. Perguntei:-olha cá Pa

checo, (era o nome dele) tu pagas-te a mulher aos pais dela? Não paguei tudo não, me falta pagar com mais dois porcos, dois cabras e seis cafuncos (galinhas), e eu inda não ter bicho todo, e feiticeiro do Cassai é forte!! Não queria acreditar! …ò meu grande burro, tu não entendes  que é falso o que o feiticeiro faz??? Isso não existe Pacheco, só te querem enganar!! Não consegui convence-lo. Apresentei o assunto ao meu chefe,  o grande Diniz, dizendo que era preciso enfrentar o feiticeiro na presença do G.E.

-Ò Carvalho vai tu porque já estás habituado com os matumbos! Disse-me o Luís com a anuência do Vinhas.

-Pronto Carvalho, vou falar com o comandante e vais amanhã ao António Cabula com o G.E. (A.Cabula era o quimbo onde estava o feiticeiro e residia os familiares da falecida). Fomos todos num UNIMOG, eu o Pacheco e a segurança que era da etnia quioca. Cheguei ao quimbo e disse ao soba que precisava de falar com toda a aldeia: era bastante gente, e perguntei ao soba quem era o feiticeiro do Cassai;notei alguma agitação naquela gente, mas lá me apontaram um homenzinho, velho, magro de meter pena e com uns andrajos sobre os ombros, seus olhos pareciam estar distantes, era este o feiticeiro?! Ao meu lado estava o G.E. que tremia de pavor: perguntei ao feiticeiro se conhecia  o Pacheco e ele disse que não:-Mas tu deitas-te feitiço no homem? Negou. Eu tinha que convencer perante aquela população e à frente do G.E. que ele estava a enganar.Virei-me para o homenzinho e disse-lhe em voz alta:- eu sei que familiares da mulher que morreu mandaram fazer feitiço, e isso é muito mau para ti!! o remédio do branco é mais forte, e quero que tires o feitiço do Pacheco, senão vais no administrador!

:-Não, o Pacheco não tem feitiço.Diz-me o homenzinho que me metia pena.

No regresso ao aquartelamento, todos em silêncio, reparava que o G.E. estava mais calmo mas ainda a tremer como “varas verdes”. Quando chegamos convidei o rapaz a ir comer qualquer coisa comigo na cantina. Fiquei espantado!!!! Pedi meio “casqueiro” com chouriço e uma cerveja para ele, e simplesmente engoliu tudo num instante, e diz-me ele que ainda tinha fome; mandei repetir a dose à qual fez o mesmo. Pensei, este gajo ou deve estar curado ou então virou predador de pão com chouriço!? Mas é verdade, vi alguns dias depois que era o mesmo homem G.E. pronto a ir para o mato.

COM UM GRANDE ABRAÇO DO CARVALHO A TODOS OS RAPAZES QUE AJUDARAM NESTE CASO.

 

publicado por paragemleste às 22:33

É verdade, a feitiçaria era algo complicado naqueles tempos. Eu, que conheci bem António Cavula , como sabes, senti esse problema no dia a dia... porém, o velhinho dava a cara e a sabedoria enquanto outros (geralmente não se sabia quem e quantos) faziam as maiores vigarices ou até matavam.
Pelo que tenho lido nestes últimos anos e pelos recentes discursos de responsáveis angolanos, ainda é um assunto actual e que querem resolver rapidamente.
Recordo uma notícia saída à poucos meses, que era mais ou menos ...crianças feiticeiras... em...

Um abraço, continua! Como eu deve haver muitos a gostar.
Carlos Alberto Santos
Alto Chicapa a 10 de Abril de 2009 às 11:33

No comentário anterior falei de uma notícia, pois aqui está uma parte:
...o problema das crianças acusadas de feitiçaria ou serem feiticeiros assume em Angola proporções que as autoridades e o Instituto Nacional da Criança (INAC) admitem como grave.
As autoridades angolanas estão a recolher dados das crianças submetidas a práticas bárbaras para serem "libertadas" dos "maus espíritos" ...
"Queremos saber se essas crianças têm familiares na província de Luanda ou se são provenientes de outras regiões", disse à Lusa Augusta Dias.
Segundo a directora, participam também neste trabalho a Polícia Nacional, a Direcção Nacional de Investigação Criminal (DNIC) e o Julgado de Menores.
"Por se tratar de um crime, vamos fazer o trabalho quer no âmbito social como no jurídico, porque se tratam de crianças menores de idade", frisou.
Augusta Dias adiantou que hoje alguns familiares destas crianças se deslocaram ao Minars, no intuito de obterem informações e tentarem recuperar os seus filhos.
"Os familiares estão a aparecer e nós vamos trabalhar de forma detalhada para confirmar se realmente são ou não familiares", disse Augusta Dias, acrescentando que estão a ser tiradas fotografias às famílias para essa confirmação.
No grupo de crianças encontrava-se um bebé, que neste momento está a ser acompanhado por pediatras para análise do seu estado de saúde.
O fenómeno, segundo vários estudos publicados na área da sociologia, tem origem em questões ancestrais, sendo a sua prática oriunda da tradição Bantu, que integra a quase totalidade do território angolano, onde um dos aspectos mais importantes é a crença de que as crianças encarnam os maus espíritos e são responsáveis pela "má sorte" das famílias.
Jornal de Angola
Alto Chicapa a 10 de Abril de 2009 às 18:50

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